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A favela vive a emergência climática, mas constrói soluções ambientais

Em 2026, o Dia Mundial do Meio Ambiente tem o foco nas alterações climáticas, nos sinais urgentes que a Terra está dando e nos sinais que escolhemos responder. Mas e a favela nesse debate? Ano após ano representantes de grandes empresas e países se reúnem para debater o clima em conferências internacionais, enquanto comunidades periféricas pelo mundo convivem cada vez mais com enchentes, deslizamentos, calor extremo, ausência de saneamento básico e insegurança ambiental. A falta de ações governamentais e a falta de recurso fez com que as favelas passassem a construir algumas das soluções mais humanas e comunitárias para a sustentabilidade urbana, de forma que resolvem problemas locais com inovação e autossuficiência.  


Segundo a ONU Habitat (World Cities Report 2024), populações urbanas pobres e marginalizadas sofrem os impactos mais severos da crise climática, mesmo tendo menos recursos para enfrentá-los. Na América Latina, 74% dos países estão altamente expostos a eventos climáticos extremos. No Brasil, a degradação da Mata Atlântica é um grande problema: o bioma, que abrange cerca de 15% do território nacional, em 17 estados, é o lar de 72% dos brasileiros mas apenas 31% da cobertura original permanece preservada, sendo menos de 10% do bioma protegido por unidades de conservação. É nesse contexto que a Casa Favela iniciou, em 2023, o trabalho de aulas de educação ambiental e de ações de preservação e mitigação do impacto ambiental. Ficamos cansados de ver a favela aparecer no debate ambiental apenas quando acontece uma tragédia. Afinal, pouco se fala sobre o papel das comunidades periféricas na preservação dos territórios onde vivem. 

No nosso contexto, território e favela não estão separados. No coração da Floresta da Tijuca, são ótimos números no trabalho que a Casa Favela faz: 818 litros de óleo de cozinha, 78kg de tampinhas plásticas e 31 kg de lixo eletrônico direcionados para reciclagem, 561 peças de roupa colocadas em circularidade, 155 árvores reflorestadas na região, 38 jovens formados no curso de educação ambiental. As ações contribuem para a regulação climática, proteção hídrica e preservação da biodiversidade, mas também constroem pertencimento, criação de vínculo com o território, ampliação de repertórios culturais e forma novas gerações com consciência climática. 


Assim como a Casa Favela, existem outros projetos e instituições que lidam, dentro das comunidades, com o problema de maneira autônoma e com pouca visibilidade. É muito grande a importância das comunidades periféricas na proteção ambiental e, por isso, não há como falar de Justiça Climática sem falar de direito ao território. A falta de infraestrutura, saneamento básico, políticas de adaptação climática e investimento ambiental proporcional faz com que o debate que acontece nas grandes conferências acabe ficando esvaziado. Sustentabilidade também é ensinar crianças periféricas a reconhecerem seu território como potência ambiental. Sustentabilidade também é reconhecer a inovação favelada como potência, possibilitando ferramentas e investimentos para que essas ações sejam replicadas em outros territórios. É preciso ouvir quem constrói de dentro, onde a floresta e cidade são um só - desde que exista inclusão e participação.


As práticas sustentáveis nas periferias frequentemente surgem da necessidade histórica de reaproveitamento e economia circular. Muito antes do discurso ESG ganhar força corporativa as comunidades já reutilizavam materiais, reduziam desperdício, compartilhavam recursos e criavam redes locais de sustentabilidade. O que muitas empresas e países debatem e buscam de soluções ambientais globais, há décadas já fazem parte da sobrevivência cotidiana das periferias. Portanto, não basta criar políticas ambientais para as periferias sem ouvir quem vive nelas. O Dia Mundial do Meio Ambiente só faz sentido se amplificar vozes e trouxer mais representatividade climática, de forma que democratize o acesso ao debate e incentive a participação comunitária. Esperar que a favela seja apenas objeto das políticas ambientais não adianta, é necessário que sejamos sujeitos construtores dessas políticas.


Esse contexto traz um grande contraste que precisamos mudar: quem mais sofre com a crise climática é quem menos recebe investimento. A América Latina está entre as regiões mais vulneráveis do planeta aos eventos climáticos extremos e há estudos (Extreme Heat in Latin America) que mostram que cidades latino-americanas enfrentarão aumento de até 2,7°C nas temperaturas urbanas até o fim do século. Ondas de calor extremas e enchentes já afetam desproporcionalmente populações pobres e periféricas. A lógica de resiliência após as tragédias precisa virar uma lógica de prevenção e redução das desigualdades, através de investimentos em iniciativas que já cuidam do território. Não é preciso “inventar a roda”, é necessário entender que o racismo ambiental existe e que para haver um adaptação climática efetiva, de forma a mitigar o impacto, é preciso de dinheiro e visibilidade.


Não há como pensar em um futuro sustentável sem justiça territorial, com as periferias na linha de frente da criação de soluções mais humanas para a crise climática, visto que muitas já existem dentro das comunidades. Preservar o meio ambiente também significa investir nas pessoas que historicamente protegem seus territórios sem reconhecimento. E é esse o foco que o Dia Mundial do Meio Ambiente deve dar ao tema.


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